segunda-feira, 20 de junho de 2016

NÃO TE FADIGUES LOGO, TENS TRABALHO PARA TODA VIDA!


Peço licença a Cecília Meireles para poder discorrer esse texto. 
Certa vez quando estava acompanhado de minha mãe no centro de oftalmologia do HC de São Paulo, fui acalentado por uma enfermeira voluntária, eu não queria usar tampão nos olhos de jeito nenhum, aquele treco coçava, sem dizer na agonia que dava enxergar as coisas com um olho só. Mas era necessário, os médicos diziam que por conta da luz da incubadora ter ficado muito tempo nos meus olhos e ter desenvolvido estrabismo por conta disso, eu deveria usar tampão para se prevenir de catarata. “Catarata?” Perguntei a minha mãe, “Igual aquela do Niagara no desenho do Pica-Pau?” 
-Não João, igual aquela que o seu avô operou ano passado, lembra?
- Mãe?
- O que foi?
-Quantos anos eu tenho?
-4 anos, por quê?
-E quantos anos o vovô tem?
-84
- Então por quê nós não voltamos daqui uns 80 anos?
Quando me contaram o que era catarata pela primeira vez eu fiquei morrendo de raiva, como pode eu com só 4 anos de idade, correr o risco de ter uma coisa que só acontecem com as pessoas velhinhas? O problema é que quando eu entendi realmente o que acontece na catarata a raiva passou na hora, até porque achei “super normal” correr o risco de ficar cego. As pessoas tem uma mania besta de assustar as crianças pra conseguir o que elas querem. “ou você usa o tampão, ou você vai ficar cego” disse uma oftalmologista megera que me atendeu. Eu comecei a entrar em desespero, gritava pra todos os cantos do mundo que eu não queria ficar cego, que eu queria assistir desenhos e brincar. Pensava comigo mesmo: “Caramba! Além de não andar, ainda vou ficar cego? Isso não é justo!” lembro que quando eu disse isso pra minha mãe chorando , ela deu risada! 
-Então é disso que você está com medo? 
Um outro oftalmologista que estava ouvindo a conversa durante horas e que tinha me esperado parar de chorar, estava segurando um pacotinho com tampões numa mão e um frasco de colírio na outra, ele ficou parado feito um poste, numa calma de dar inveja a qualquer um. Ele era tão sereno e calmo que por conta disso foi meu oftalmologista por 14 anos.
-Qual é o seu nome?
- João Paulo
- João, você sabe o que eu faço?
- Você é Oculista não é?
- Não, eu sou oftalmologista, eu sou médico dos olhos, o oculista é quem lê minhas receitas e faz o seu óculos.
- E o que o tampão tem haver com vocês dois?
Ele riu, e me disse que o tampão era necessário pra prevenir algo mais grave, que eu não ficaria cego se usa-se o tampão, muito pelo contrário, o risco de ficar cego seria maior se eu não usa-se 
Desde muito cedo eu fui obrigado a entender que por mais que uma coisa possa ser chata e idiota, não faze-la pode ser ainda pior. Uma enfermeira voluntária concordou comigo, e me disse . “O meu neto também usou tampão e hoje ele não usa mais, é chato no começo mas depois você se acostuma!”
Ah! Então não é pra sempre? Perguntei!
Não, respondeu o médico, se você me obedecer e obedecer a sua mãe, antes dos 7 anos você não usa mais tampão, mais aí é você quem decide. Cirurgia ou tampão?
Hoje eu olho pra essa cena e a única coisa que mais me chama a atenção é a besta da médica que me atendeu feito onça, parada ao fundo de braços cruzados como se estivesse esperando o ônibus. Tudo naquela época era ainda muito novo pra mim, sempre existiram, e sempre existirão médicos pra olhar pra uma pessoa com deficiência como se ela fosse um defeito sem personalidade, sem escolha do sim, ou do não independentemente da idade ou da deficiência. Se coagir uma criança através do medo pra conseguir algo já pode ser traumatizante, imagine gritar pra uma criança de 4 anos que não anda, que ela corre o risco de ficar cega se ela não fazer o que você mandar?
A enfermeira me deu uma bala e disse pra minha mãe não ligar, a médica era chata com todo mundo. No entanto, sempre que o meu oftalmologista estava viajando ou em cirurgia era ela que me atendia. Quando isso acontecia a enfermeira logo me avisava, me prometia dois pirulitos caso eu tivesse paciência com a médica e se comportasse, a minha mãe prometia o meu prato favorito as oito horas da manhã, chocolate quente com pão na chapa.
Eu sentava na cadeira do oftalmo que mais parecia o trono de um rei pra uma criança de 4 anos, daí ela apagava as luzes e começava a me examinar com uma lanterna e várias lentes enquanto me pedia pra olhar as letras num cartaz na parede, aprendi a perder o medo do escuro e tomei curiosidade pelo alfabeto assim. 
Tenho saudades daquela época, acordar cedo pra fazer exames sem saber se era um médico legal ou uma megera amarga que iria me atender, se a enfermeira iria me dar um pirulito ou dois, ou se no lugar do chocolate quente eu poderia pedir um café com leite, por ter aturado uma médica que bufava quando eu me mexia. Tem gente que diz: “Se eu ganhasse um real por cada chato que me aparece” Eu ganhava chocolate quente. Mas com o passar dos anos não era a isso que eu me apegava, como dizia Cecília Meireles: “Tudo é preciso de tudo viverás” Eu aturava aquela mala sem alça porque não queria ficar cego, e não porque eu queria pão na chapa e chocolate quente, mas é claro, depois que tinha entendido isso nunca contei nada pra minha mãe. Tive muito medo de ficar cego na minha primeira infância, talvez se aquele oftalmologista não tivesse se abaixado na minha frente para explicar o que estava acontecendo eu teria dado mais trabalho ainda pra minha mãe. Quando tinha 7 anos de idade perguntei pra mesma enfermeira, como pode duas pessoas serem da área da saúde, formados pela USP e serem tão diferentes, uma tão ranheta, e a outra tão legal. Então ela me disse: USP não quer dizer nada, se formar na USP não faz de você uma pessoa melhor. Ela se formou talvez por gostar de tratar de doenças, ele se formou por gostar de pessoas. Ele atendeu o meu neto cobrando um valor irrisório como se nós fossemos parentes, e ela nem sabe direito o meu nome até hoje. E isso não tem nada haver com a USP. 
A partir daquele dia creio que a Cecília Meireles tinha razão “Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.”

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Non Ducor Duco



Se uma pessoa sem deficiência derruba um prato num Self – Service: Aparece um garçom perguntando se está tudo bem, se você precisa de ajuda e logo depois ele vai pegando uma pá de lixo e uma vassoura. Recolhe o lixo, e pronto, acabou o assunto!
Se uma pessoa com deficiência derruba um prato no Self Service: Aparece o garçom, o gerente, o resgate, a SWAT, a imprensa, Jack Bauer.
E se você diz que não bebe nada alcoólico? A primeira coisa que as pessoas perguntam é se você toma algum tipo de remédio. Eu tenho 22 anos de idade e nunca bebi e nem fumei. Quando se é criança e se passa mais tempo num prédio de traumatologia do que em casa a gente pensa em se cuidar mais pra não ir parar no hospital. Eu nunca tive caxumba nem catapora, e nem nenhuma doença que me fizesse ficar internado em estado grave. Só que eu comecei a minha infância na ala de Traumatologia e Ortopedia do HC (Hospital das Clínicas.) Não é o lugar mais Horrível do mundo, mas também não teria graça nenhuma estender uma toalha e fazer um piquenique ali. Vi muita gente com gaiolas nas pernas, nos braços. Gente que perdeu um membro porque bebeu e foi dirigir ou porque dormiu com o cigarro aceso. Minha mãe me levava duas vezes por semana no HC, eu tinha 3 pra 4 anos, não achava chato e nem ficava perturbando a minha mãe com aquele pedido clássico de criança em hospital “Mãe, vamos embora? ”  Ela me estimulava a se exercitar e se alongar desde um ano praticamente, quando eu comecei a fazer fisioterapia eu nem sabia que era fisioterapia, achava que era um procedimento padrão que toda mãe fazia no filho antes de dar banho. O problema é que fisioterapia é um treco que dói pra caramba. Se alongar é muito dolorido, depois de operar então. Eu chorava muito, mas a minha sorte é que eu sempre tive fisioterapeutas muito doces que sempre me incentivaram. Todas as vezes em que eu gritava de dor e pensava em desistir eu levantava a cabeça do tablado e via as outras crianças da minha idade andando e tinha inveja delas, na rua, no hospital. Perguntava pros meus coleguinhas de fisioterapia se andar era legal, se eles demoraram muito pra aprender, se era muito difícil. Por mais que eu quisesse desistir, se alongar era o único jeito.  Agora escrevendo esse texto é que eu percebo que peso assim inconscientemente até hoje. “Foda-se se tá difícil, foda-se dói.



Com 5 anos de idade, uma vez por semana depois dos exercícios, eu ia com a minha fisioterapeuta pra uma sala onde a gente esperava uns estudantes, lá ela me fazia caminhar em cima de uma passarela de 2 metros com duas barras paralelas da mesma largura que por sua vez eram presas na base da passarela pra ser usadas como corrimão. Eu andava pra lá e pra cá. Os estudantes faziam anotações, tiravam suas dúvidas com a minha fisioterapeuta e as vezes ela me pedia pra repetir alguns movimentos pra reavaliar argumentos. No começo eu não me incomodei muito, até que chegou uma época em que eu comecei a prestar atenção na conversa. É claro que eu não entendia muita coisa, mais só de perceber aquele monte de gente sentado, conjecturando sobre mim e fazendo anotações como se eu fosse um espécime a ser estudado, me incomodou muito, daí eu pedi pra não fazer mais aquilo. “Tudo bem! ” Ela disse, depois me deu um beijo no rosto e sorriu.

COMO QUEBRAR UM VASO


Foi sem querer!
- E como você sabe que foi sem querer?
- Ela entrou correndo e esbarrou, foi sem querer
- Ela não viu?
- Não, estava escuro.
-Como foi?
Ela chegou às pressas, ia correr na minha frente para ir ao banheiro mas evitou quando percebeu que eu esticava o fio da tomada para ligar o aspirador de pó. Perguntei aonde ela ia com tanta pressa e ela começou a correr de novo dizendo para onde ia. Foi quando ela esticou o braço, não viu o vaso e derrubou ele no chão.
- Qual vaso?
- O de ânfora em porcelana Romana
-VISH! Mais um desses, de novo? Quantas vezes derrubaram de propósito esses vasos no chão, umas... 10?
-19!
-E você fez ela pagar também, não foi?
-Não!
- Como Não? Todas as vezes que alguém joga um desses vasos no chão você faz a pessoa pagar o preço.
-É! E todas as vezes em que elas se oferecem quebram algum deles de novo.
E o que você fez, por que você não disse para ela pagar o seguro?
- Ela entrou correndo, não viu o vaso e estava escuro. Além do que não se briga com uma pessoa por esbarrar num vaso sem querer, mesmo que ele seja raro.
- E qual a diferença?
- A diferença é que ela cometeu um acidente, entrou correndo, não viu o vaso. Já as outras pessoas veem os vasos, sabem dos vasos, dizem ficar maravilhadas com os vasos e mesmo assim jogam no chão de propósito quando acham que não tem valor.
- Então elas pegam o vaso nos braços, olham nos seus olhos e soltam o vaso no chão de propósito. Sei, já me contaram essa história antes. De como invadiram a sua casa e quebraram os vasos por acharem eles sem valor comercial e como te bateram quando descobriram que você não tinha muito dinheiro.
É verdade que a polícia quis te prender por ter batido nos ladrões dizendo que era muito natural eles invadirem a casa das pessoas, baterem nelas e que você era o único da vizinhança que reclamava disso? É verdade que você teve que pedir desculpas publicamente para um dos caras que te bateu?
-Sim! Tive que fazer isso e ainda lavar a camiseta dele que sujei durante a briga, caso contrário a polícia disse que assinaria uma advertência contra mim. Você não se lembra que o ladrão queria uma camiseta nova?
- Sim! Eu me lembro! Mas você realmente tem certeza de que ela...
- Eu já disse! Estava escuro, ela mal conhece a minha casa, nunca viu o vaso. E além disso ela é distraída, dorme pouco. Não ficaria surpreso se um dia ela passa-se na rua usando as calças do pijama no lugar da calça jeans.
-Então você não ficou chateado?
Claro que eu fiquei, tive raiva na hora, mas daí eu lembrei que ela não sabia das histórias, das inúmeras vezes em que eu apanhei dos ladrões e a polícia não queria levar o caso adiante, por que eu não tinha nada de valor que foi roubado, etc.
E o que você fez?
Bom, uma semana depois ela passou pela rua novamente e eu disse o que tinha acontecido, que demorei para dizer que tinha ficado chateado por causa das vezes que já quebram os meus vasos, que precisava separar ela das outras histórias, etc, etc.
-E como ela reagiu?
-No começo fiquei meio temeroso, ela não estava muito bem, não a conheço muito bem, não sabia como ela iria reagir.
-Como assim, ela estava doente?
- Tinha pedra nos rins, nada que venha ao caso comparado com as ameaças de advertência da polícia cada vez que alguém te agride. Ela foi inteligente, pegou nas minhas mãos, olhou nos meus olhos e me pediu desculpas, muito diferente dos outros policiais que vão logo apontando o dedo na sua cara e usando da autoridade para se justificar.
-Ah! Ela é da polícia também é?
Sim! Polícia forense. Um dia eu passava pela rua e ela me chamou para tomar um café. Fiquei desconfiado, mas como nem sempre os forenses andam armados, resolvi arriscar. Uma semana depois que ela foi até em casa, me deu um abraço e pediu desculpas de novo por ter me chateado, derrubando o vaso.
- E o vaso?
- Quebrei o resto e joguei fora!
- Você jogou fora um vaso de de porcelana Romana ?!!! Você é louco?


-Claro! Já estou cansado de todas as vezes que invadiram a minha casa por causa desses vasos e eu tive que ligar para o seguro ouvindo a polícia dizer que eu deveria esconder os vasos. Que, apesar de eu ter sido agredido e blá! blá! blá! E que se eu não estivesse satisfeito com a vizinhança que caísse fora. E Blá! Bla! Blá! E esse vaso era velho, todo remendado. No fundo eu acho que ela até me fez um favor derrubando aquela velharia dali.

O DIA EM QUE DESCOBRI QUE TINHA CÉREBRO


A primeira vez foi em 2001. Sempre que eu não acompanhava as matérias, tirava menos que 5 nas provas, a minha professora chegava com um bilhetinho na minha mesa e dizia que era para eu entregar para minha mãe. Eu perguntava sobre o que era, se eu tinha aprontado algo, mas todas as vezes ela dizia que eu não tinha feito nada. “Não é nada, só preciso falar com a sua mãe. ”  Ah! Tinha um detalhe.  Nessa época eu estava na 1° Série do Fundamental, só sabia escrever.  Quando nós estávamos entrando no 2° semestre e eu dizia pra minha professora que eu não sabia ler, ela olhou pra baixo, triste, ficou em silêncio, como quem disse-se “Oh! Pobre coitado, tem quase 8 anos é deficiente e não sabe ler. ”
Eu sei que essa análise a princípio deve soar meio egoísta, mas eu só cheguei a essa conclusão de que ela me via como um pobre coitado quando ela entregava as provas de todo mundo menos as minhas, me dava atividades diferentes dos meus colegas, não lembrava que eu usava muletas e me esquecia na sala. Dentro do mundo de uma criança de 7 anos, eu achava isso normal. “Ah, Normal! Os meninos surdos que estudam lá embaixo do lado do banheiro são tratados mais ou menos assim, ouvi dizer lá na AACD que eles também são deficientes. ”
Eu só fui me tocar que isso tudo era errado quando uma professora nova da mesma escola me confundiu com um aluno surdo só por causa das muletas. Não me perguntem como ela chegou a essa brilhante conclusão porque até hoje eu nunca vi alguém que usasse muletas por ser surdo.
- Oi professora G, esse é aquele seu aluno meio burrinho né? (Baixo)
- É claro que eu sou burro, é você que me dá aula!
Foi divertido, eu nunca tinha visto ninguém tomar um susto por minha causa até aquele dia, a mulher ficou tão branca que por um segundo parecia que a alma dela tinha saído correndo e esquecido de levar o corpo junto.  Eu me amarrei tanto nisso, que até hoje quando eu ouço uma frase com a palavra “correr” e lento” no meio, eu tento fazer uma piada.
Certo dia
- Terminem logo essa prova. Olha, eu sou que nem uma velhinha na fila do INSS, quando eu me invoco eu saio CORRENDO e ninguém me acha!
- Te entendo professora! :D

Quando era primeiro dia de aula de professora nova
-Será que alguém poderia ir CORRENDO pra mim até a xerox lá embaixo?
Daí eu gritava lá do fundo levantando o braço: EU... QUE NÃO!
Uma vez eu soltei essa na 2° série, a professora era nova e não sabia que eu era deficiente. A coitada ficou com tanta raiva de mim que queria, porque queria que eu fosse pegar a Xerox.  Quando me levantei e comecei a andar na direção dela perguntando se podia trazer as folhas de uma em uma, ela me pediu desculpas e foi lá mesmo buscar as folhas. Nunca mais ela entrou na sala sem passar antes na xerox, e sempre me perguntava se eu tinha entendido a matéria dela.

O que aconteceu com a professora que me chamou de burro quando eu tinha 7 anos? Pediu demissão, a minha professora G. tinha me pedido pra não contar nada a ninguém, mas quando isso chegou nos ouvidos da direção da escola a Professora A. já tinha ido embora!

Como eu aprendi a ler? Como uma fonoaudióloga na AACD chamada Andreia H. Faltando 3 meses pra eu completar 7 anos ela me ensinou a ler. Levei bronca, fui preguiçoso, até o dia em que eu disse:
-Não consigo tia Andréia, eu sou muito burro!
-João, burrice não é a falta de conhecimento, isso é só um termo bobo que as pessoas inventaram pra dizer que você não consegue fazer o que todo mundo tem dificuldade em fazer. Ninguém nasce sabendo, pra todo mundo no começo ler é difícil, todo mundo já se sentiu assim, inclusive eu. Além de que a sua deficiência não tem nada a ver com isso. As suas notas na escola só dizem o que você sabe ou não sabe, e não o quanto você é inteligente.
-Então quer dizer que o meu cérebro é burro igual ao de todo mundo tia Andreia?
- Não, o seu cérebro não está no mesmo lugar que o das pessoas burras de verdade João!
- Ué, cadê ele então?
- No seu coração!

Eu nunca mais vi a Andreia depois que ela me ensinou a ler, as pessoas dizem que comigo o processo foi mais rápido porque eu já sabia escrever, o engraçado é que as pessoas que dizem isso até hoje, são as mesas pessoas que poderiam me ensinar a ler e não conseguiram.

Bem depois é que eu fui entender o que a Andreia quis dizer com tudo isso. Se você tem a inteligência no coração as pessoas que ouvem com o coração te entendem, porque elas têm consciência de que só possuem um raciocínio “adulto” apenas naquelas áreas nas quais foram socializadas. Então não é demérito nenhum confundir alguém com um surdo se você não convive com deficientes O problema é as pessoas acharem que você é incapaz, só porque te percebem como incapaz, pelo simples fato de nunca terem convivido com você.








O DIA QUE ME CONTARAM QUE EU NÃO SOU DEFICIENTE


Foi quando eu era criança, eu deveria ter uns 6 pra 7 anos mais ou menos. Ela era psicopedagoga, (deve ser ainda) me atendia na AACD e viva me perguntando do "por que" eu estar ali se existiam outras pessoas na fila de espera com deficiências mais graves do que a minha.

Certo dia a AACD colocou fonoaudiologia na minha grade horária, minha mãe conversou com um fisiatra que me atendia uma vez a cada 6 meses, de lá ele me encaminhou pra fono e como eu ainda estava ligado a AACD e fazendo terapias, comecei o tratamento.

Minha mãe estava muito preocupada, eu já tinha 7 anos, quase 8 e ainda não sabia ler nem escrever. Quando você é deficiente, aluno de escola pública e você houve a sua professora dizer pras colegas que tem uma pessoa com deficiência na sala dela, você para e pensa: "fudeu”! Não sou um ser humano, sou uma pessoa, sou uma pessoa, e talvez um aluno."  As pessoas acham que quando se é criança você é só uma criança de 7 anos que não quer nada da vida, que só pensa em brincar, jogar bola, enfim coisas de criança.  E quando você é deficiente? Bom, as pessoas não acham nada, te chamam de deficiente e as vezes acrescentam pessoa no início da frase só pra dizer: "Nossa como eu sou legal, aprendi que deficientes também são pessoas!"

A psicopedagoga que ministrava a minha terapia, quando viu eu e a minha mãe conversando no corredor com a fono quase teve uma crise de raiva. Dizia pra minha mãe que ali não era o meu lugar, que a minha mãe tinha que procurar tratamento (psicólogo) e ver logo de uma vez que eu não tinha deficiência alguma.

Em 8 meses a fono me ensinou a ler, eu só fui me aprimorar bem na escrita depois que entrei pra escola Waldorf, lá se escreve tanto que até redação sobre como a minha mãe escolheu meu nome eu fiz.
No fundo no fundo, por mais que eu saiba que aquela psicopedagoga estava errada em chamar a minha mãe de louca eu queria que algumas professoras minhas pensassem como ela. Quando eu fiz a transferência da escola pública pra particular eu senti que nem todos os meus professores vinham "prontos" como um brinde no fundo da caixa de cereais, alguns deles quiseram saber mais sobre min, sobre a AACD. Em escola Waldorf tive muitas barreiras tanto arquitetônicas quanto sociais, posso contar nos dedos de uma só mão quantos professores eu tive na infância e que viam em mim uma criança, um ser humano com potencial. Mas só de me chamarem de aluno e criança eu me sentia bem, eu não era só mais uma pessoa com deficiência, eu era um ALUNO que tem uma deficiência. Eu não sei porque, mas eu só me senti João Paulo quando eu entrei na escola de teatro. Na escola Waldorf eu passei de pessoa com deficiência, pra um aluno, que de vez em quando era chamado de "Osasco" "cabeção" já no teatro é diferente, eu passei de aluno pra JP, João Paulo, um cara que além de aluno é ESTUDANTE.
E a deficiência? Às vezes, no teatro, os meus colegas esquecem, os professores na faculdade se esquecem, e as vezes eu também. Por um fato muito simples, me apaixonei tanto pelo que eu descobri dentro de mim no teatro, que as minhas limitações não fazem de mim quem eu sou, isso é apenas o meu corpo, e não eu. Não é preciso ser deficiente pra ser atuante e vice-versa, a minha deficiência é algo físico que se deu por um fator neurológico, mas a minha composição é a mesma de como qualquer outro ser humano, e é aí que eu moro hoje, dentro dessa composição, num jardim cheio de composições químicas e orgânicas que de vez em quando eu teimo em enfeitar. Meu corpo é apenas uma casca que não consegue fazer coisas, isso não me interessa, o que me interessa está dentro da casca, eu!




Gás do Sono tem cheiro de bexiga

Tchau, nunca mais quero te ver!

 Foi com essa frase que dois ortopedistas e um fisioterapeuta me convenceram a não fazer a minha oitava cirurgia.
 Da última vez eu tinha desistido da cirurgia por causa do teatro da escola, dessa vez foi porque eu iria entrar em cartaz como ator profissional. Cirurgia é um saco, o corredor do centro cirúrgico tinha que ser tão grande? Da tempo de ver a história da sua vida duas vezes e ainda fazer uma anotação mental “Faça o que tiver vontade! ”  Isso é a primeira coisa que me vem à cabeça, talvez seja por causa da vontade que eu tenho de levantar e sair correndo. Podem falar o que quiser, mas atire a primeira pedra quem já fez uma cirurgia e não ficou com um medo ferrado de morrer. Então você começa a se lembrar como foram os outros pós-operatórios, fica com pressa pra que a agonia toda passe logo e a sua vida pule pra parte em que você liga pra sua mãe pedindo pra ela fazer um bolo de cenoura O pós-operatório é mais legal, você fica na cama recebendo livros, docinhos e outras tranqueiras.  Com quinze dias você tira os pontos, se tiver pinos morde um pano e segura na mão de alguém porque nessa hora anestesia é a última coisa que vai ter.  Com três dias de hospital você vai pra casa, só que parece que não vai você, a sua alma parece pertencer ao corpo de outra pessoa. Talvez seja o alívio de não ter que se preocupar mais com o 5% de chance de algo dar errado. Do alivio dos 5% vem a preocupação: "Como é que eu vou chegar até o meu quarto, quem vai me carregar?" Como é que eu vou fazer pra vir ao hospital passar pelo monitoramento, tirar os pinos, o gesso?" O gesso! Deus inventou a agulha de tricô, o diabo, o gesso. Você amarra um algodão úmido na cabeça de uma agulha e vai da fúria, torpor e coceira pra satisfação amor e alegria em 2 milésimos de segundo. Os teus ombros se arrepiam e o seu mundo se dissolve em um campo ensolarado cheio de flores, graças a uma insignificante agulha de madeira que não é mais uma agulha de madeira, é uma aliada que você guarda ao lado da cama como se fosse um Santo Graal.

 Um mês depois você quer levantar da cama de qualquer jeito, dane-se se você vai demorar 25 minutos ou mais pra chegar até o banheiro, você apostou uma panela de brigadeiro. O truque pra ganhar a aposta é muito simples: É só treinar quando não tiver ninguém em casa, quando alguém vier te visitar faz corpo mole até dizer que sente vontade de comer alguma coisa e a pessoa te responder que só vai preparar o prato se você levantar da cama.  Se você engorda? Sim, mas o esforço de caminhar com gesso é tão grande, nada que três passeios no corredor ao dia não resolva. Seis meses depois você tira o gesso, toma um susto, não lembrava que o chão era tão gelado assim. A primeira coisa que você faz é instintivamente coçar a perna por mais ou menos meia hora.  Aquele Graal não existe mais, voltou a ser agulha. Cadeiras de rodas e muletas são devolvidas e você não precisa mais se preocupar em molhar o pé na hora de tomar banho.  Os médicos te elogiam, e comentam sobre uma próxima cirurgia daqui a 5 anos. Talvez ela não aconteça, você tem paralisia cerebral e o mais eficaz seria operar o seu cérebro, optar por uma próxima correção é meio arriscado agora que você cresceu. Você tem a vida ativa, sabe andar sozinho e está ocupado pensando em Plínio Marcos, Augusto Boal, Stanislavski e Freud. Você está preocupado em viver a doce recompensa que é ser você depois de tantos dias se apoiando em muletas e pessoas.

Se eu gostaria de fazer uma cirurgia milagrosa que me corrigisse? Não, não preciso ser corrigido, não mais!