terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O DIA QUE ME CONTARAM QUE EU NÃO SOU DEFICIENTE


Foi quando eu era criança, eu deveria ter uns 6 pra 7 anos mais ou menos. Ela era psicopedagoga, (deve ser ainda) me atendia na AACD e viva me perguntando do "por que" eu estar ali se existiam outras pessoas na fila de espera com deficiências mais graves do que a minha.

Certo dia a AACD colocou fonoaudiologia na minha grade horária, minha mãe conversou com um fisiatra que me atendia uma vez a cada 6 meses, de lá ele me encaminhou pra fono e como eu ainda estava ligado a AACD e fazendo terapias, comecei o tratamento.

Minha mãe estava muito preocupada, eu já tinha 7 anos, quase 8 e ainda não sabia ler nem escrever. Quando você é deficiente, aluno de escola pública e você houve a sua professora dizer pras colegas que tem uma pessoa com deficiência na sala dela, você para e pensa: "fudeu”! Não sou um ser humano, sou uma pessoa, sou uma pessoa, e talvez um aluno."  As pessoas acham que quando se é criança você é só uma criança de 7 anos que não quer nada da vida, que só pensa em brincar, jogar bola, enfim coisas de criança.  E quando você é deficiente? Bom, as pessoas não acham nada, te chamam de deficiente e as vezes acrescentam pessoa no início da frase só pra dizer: "Nossa como eu sou legal, aprendi que deficientes também são pessoas!"

A psicopedagoga que ministrava a minha terapia, quando viu eu e a minha mãe conversando no corredor com a fono quase teve uma crise de raiva. Dizia pra minha mãe que ali não era o meu lugar, que a minha mãe tinha que procurar tratamento (psicólogo) e ver logo de uma vez que eu não tinha deficiência alguma.

Em 8 meses a fono me ensinou a ler, eu só fui me aprimorar bem na escrita depois que entrei pra escola Waldorf, lá se escreve tanto que até redação sobre como a minha mãe escolheu meu nome eu fiz.
No fundo no fundo, por mais que eu saiba que aquela psicopedagoga estava errada em chamar a minha mãe de louca eu queria que algumas professoras minhas pensassem como ela. Quando eu fiz a transferência da escola pública pra particular eu senti que nem todos os meus professores vinham "prontos" como um brinde no fundo da caixa de cereais, alguns deles quiseram saber mais sobre min, sobre a AACD. Em escola Waldorf tive muitas barreiras tanto arquitetônicas quanto sociais, posso contar nos dedos de uma só mão quantos professores eu tive na infância e que viam em mim uma criança, um ser humano com potencial. Mas só de me chamarem de aluno e criança eu me sentia bem, eu não era só mais uma pessoa com deficiência, eu era um ALUNO que tem uma deficiência. Eu não sei porque, mas eu só me senti João Paulo quando eu entrei na escola de teatro. Na escola Waldorf eu passei de pessoa com deficiência, pra um aluno, que de vez em quando era chamado de "Osasco" "cabeção" já no teatro é diferente, eu passei de aluno pra JP, João Paulo, um cara que além de aluno é ESTUDANTE.
E a deficiência? Às vezes, no teatro, os meus colegas esquecem, os professores na faculdade se esquecem, e as vezes eu também. Por um fato muito simples, me apaixonei tanto pelo que eu descobri dentro de mim no teatro, que as minhas limitações não fazem de mim quem eu sou, isso é apenas o meu corpo, e não eu. Não é preciso ser deficiente pra ser atuante e vice-versa, a minha deficiência é algo físico que se deu por um fator neurológico, mas a minha composição é a mesma de como qualquer outro ser humano, e é aí que eu moro hoje, dentro dessa composição, num jardim cheio de composições químicas e orgânicas que de vez em quando eu teimo em enfeitar. Meu corpo é apenas uma casca que não consegue fazer coisas, isso não me interessa, o que me interessa está dentro da casca, eu!




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